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Tom Morello fala de seu novo disco com Bruce Springsteen e Eddie Vedder: ‘Foi meu bote salva-vidas durante a pandemia’

15 de outubro de 2021

Por Bernardo Araujo

No começo, ouve-se apenas a voz de Tom Morello. Avisado, ele liga a câmera (“é aquele botãozinho ali embaixo”, explica uma alma solidária) e, sorrindo, desculpa-se.

– Já estou aqui? A tecnologia às vezes é muito desafiadora para mim.
O guitarrista de 57 anos, conhecido por seu trabalho com Rage Against the Machine, Audioslave e diversos outros projetos, conversa com a imprensa brasileira por chamada de vídeo para divulgar seu novo disco solo, “The Atlas Underground Fire”, lançado nesta sexta-feira. Resolvido o entrave cibernético, ele fala com a costumeira desenvoltura. 

– É um disco feito no auge da pandemia, um disco da peste – define ele. – Em março de 2020, pela primeira vez desde que tinha 17 anos, me vi na perspectiva de não gravar e não fazer shows por muito tempo. Isso tudo com o medo, a depressão e todos os problemas que aconteciam no mundo, quando tínhamos que manter as vovós vivas, as crianças sãs… O disco, na verdade, foi um bote salva-vidas para mim. Com o domínio que Tom (não) tem da tecnologia, tudo ficou um pouco mais complicado.

– Li uma entrevista do Kanye West em que ele dizia que estava gravando vocais em seu telefone e mandando para o produtor, então comecei a fazer o mesmo: gravava licks da guitarra no celular e enviava para produtores e engenheiros – explica ele. – Tenho um estúdio em casa (mostra o ambiente), como vocês estão vendo, mas não sei mexer em nada. Só toco no botão de volume, e isso quando deixam. A rejeição à tecnologia é uma opção consciente.

– Resolvi ignorar, há mais de 30 anos – diz Tom. – Desde 1988 que meus pedais e amplificador são as mesmas porcarias. Eu resolvi encontrar a minha voz a partir daquele equipamento, e não acompanhando as novas tecnologias. Claro que admiro muitos guitarristas ligados nisso, como The Edge (do U2), Jack White e  Matthew Bellamy, do Muse. Mas não é dessa forma que eu trabalho. Já que não podia sair mesmo, ele começou a pensar em artistas que gostaria que participassem das canções. Dentre as participações, uma das mais surpreendentes é a do cantor country Chris Stapleton.

– Eu o conheci no show em homenagem a Chris Cornell, achei um cara adorável e trocamos telefones – conta Tom. – Quando resolvi gravar o disco, propus a ele fazermos uma música. Começamos uma chamada por Zoom, com instrumentos na mão, e por duas horas só conversamos sobre os problemas da pandemia, sem tocar uma nota. Essa conversa virou o tema da canção, “The War Inside”. Com convidados tão diferentes, que vão de Bruce Springsteen e Eddie Vedder (em “Highway to Hell”, clássico do AC/DC) a Bring Me the Horizon e Phantogram, passando por Pham e Grandson, havia sempre o perigo de o disco soar como uma metralhadora giratória.

– Minha ideia foi usar a guitarra como a espinha dorsal, a voz-guia do disco, mas, claro, liberando os parceiros para criarem cada canção comigo – diz ele.  – Eu gosto muito de ser curador, seja de discos, seja de… sei lá, de festas infantis. Tento não ser ditatorial, e talvez tenha uma certa dificuldade com isso.  Um papo com Tom Morello, o homem que compôs os riffs de “Killing in the name”, “Bullet in the head” e tantas outras músicas de cunho ativista, não podia passar sem o tema da política.

– Eu tento acompanhar o que acontece pelo mundo, não só nos Estados Unidos – diz ele, que, em sua última vinda ao Brasil, com os Prophets of Rage, escreveu “Fora Temer” na guitarra e falou da vereadora carioca Marielle Franco, assassinada em 2018 no Rio. – Acho que o mundo de hoje, dominado pelo liberalismo econômico, deixa os governos sem investimento em muitos setores das classes trabalhadora e média. Isso abre espaço para presidentes como Trump, o de vocês e alguns na Europa, que gostam de culpar os mexicanos, os muçulmanos, os imigrantes por tudo.