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Reencontro de Bruce Springsteen com a E Street Band é puro filé do Chefão; por Bernardo Araújo

23 de outubro de 2020

‘Letter to you’, lançado nesta sexta-feira, traz o cantor de 71 anos em momento reflexivo e autobiográfico, acompanhado pela banda em chamas, ao vivo no estúdio

Bernardo Araujo 

Bruce Springsteen foge de demo como o diabo da cruz, mas sem conotação religiosa: demo, no jargão dos músicos, é uma pré-gravação (de demonstration tape, fita de demonstração), um rascunho de uma canção, para o artista ouvir a si mesmo antes de entrar no estúdio e registrar a versão definitiva.

– Eu ficava preso nas demos, não acabava nunca de gravar – disse The Boss a um podcast da Apple, em entrevista sobre seu novo disco, “Letter to you”, lançado nesta sexta-feira. Para evitar o diabo da demo, Bruce, já com as músicas prontas, chamou seus velhos companheiros da E Street Band para o estúdio, em novembro de 2019, com apenas cinco dias reservados para os trabalhos.

– Gravamos tudo em quatro dias, no quinto ouvimos o que tínhamos feito – conta ele. – A banda já tinha sido registrada tocando ao vivo no estúdio, mas essa foi a primeira vez em que tudo foi aproveitado. Só regravei alguns solos e outras pequenas coisas; o instrumental, os vocais, tudo foi para o disco da forma como foi gravado.

Bruce soa empolgado como um artista lançando disco novo – o fato de ser o vigésimo, em uma carreira de quase 50 anos, milhões de discos vendidos e 71 anos de idade, não parece importar muito -, mas “Letter to you” está longe de ser uma obra feliz: canções lentas, encharcadas de teclados e violões marcam as melodias tristonhas, em um lado do cantor presente em discos como “The ghost of Tom Joad” (1995) e “Wrecking ball” (2012).

Não por acaso, os dois discos em questão, ao lado deste “Letter to you”, trazem reflexões sobre momentos políticos e sociais complicados nos EUA, a principal praia lírica do roqueiro que escreve crônicas da classe trabalhadora americana.

Além dos EUA de 2020 – uma polaroid que, ele espera, começará a amarelar com a eleição de Joe Biden no começo de novembro -, a própria história do astro tempera “Letter to you” de cima a baixo, de “The last man standing” (em que ele reflete sobre a morte de um companheiro de sua primeira banda, que o deixou como o único sobrevivente) a “House of a thousand guitars”, uma comovente exortação ao rock e à música, com direito a crítica política, e a comovida “If I was the priest”, de ligeiro sabor country. Mais energéticas, “Ghosts” (lançada como single antes do disco, assim como “Letter to you”) e “I’ll see you in my dreams” são acenos ao passado, mas sem nostalgia.

Bruce vem contando sua história em mídias diversas nos últimos anos, no livro “Born to run”, de 2016, no especial “Springsteen on Broadway”, disponível na Netflix e em outros projetos, e um documentário sobre as gravações de “Letter to you” que chega nesta sexta à Apple TV, assinado por Thom Zimny.

Chamada pelo Chefão para o primeiro trabalho em conjunto no estúdio desde “High hopes”, de 2014, a lendária E Street Band comparece em grande estilo, principalmente no órgão Hammond de Charles Giordano, na bateria sempre precisa de Max Weinberg (pai do titular das baquetas no Slipknot, Jay Weinberg) e na massa sonora grandiloquente, que inclui saxofone, piano e várias guitarras e violões, tudo ao mesmo tempo agora.

O resultado é um disco clássico de Bruce Springsteen, que poderia ter sido lançado em 1980, em 2000 ou em 1991, com a voz do cantor no auge e seu estilo característico de composição, melódico, privilegiando refrãos e pezinhos batendo (ou qualquer outra parte do corpo no ritmo), mais definido do que nunca.

Pra que serve uma demo mesmo?