Tocando agora:

...

...

Conversamos com Kiko Loureiro: em plena atividade na pandemia, músico se refugia na Finlândia e lança disco solo

28 de julho de 2020

Guitarrista brasileiro do Megadeth reforça o caráter colaborativo de ‘Open source’, em que recebe Marty Friedman

Por Bernardo Araujo 

Kiko Loureiro toma dez xícaras de café por dia.
– Isso não é nada bom pra mim, eu sei – confessa o guitarrista nascido no Rio e criado em São Paulo, por telefone, de Helsinki, na Finlândia, onde se refugiou na quarentena.

Mas o ser humano tem essas coisas, insiste em fazer o que não é o melhor pra ele. Não vê aqueles caras que correm com os touros na Espanha?, tá perdoado, Kiko.

O músico de 48 anos está na maratona de divulgação de seu novo disco solo, “Open source”, já disponível nas plataformas, enquanto espera o mundo voltar a girar e o desenrolar de outros projetos, principalmente o Megadeth, camisa que veste desde 2015: – Estivemos em turnê em janeiro e fevereiro, depois íamos, imagina, tocar em um evento chamado Corona Festival, no México – conta ele, conhecido inicialmente como fundador do grupo paulistano Angra: – Aí parou tudo, eu já estava aqui na Finlândia, ficamos de uma vez. Aqui é bom demais, quase não teve corona (foram 329 mortes até o último dia 27 de julho, com 149 casos ativos, nenhum grave), as pessoas estão levando a vida normalmente, com alguns cuidados, mas nem máscara a gente precisa usar. Aqui as crianças estão em férias, veem os avós (ele é casado com a tecladista finlandesa Maria Ilmoniemi, com quem tem três filhos), está tudo tranquilo.

Perfeito para tomar um cafezinho (ou vários) e conversar sobre o novo disco, o quinto do seu currículo pessoal: – Já estava praticamente tudo gravado antes da pandemia, só atrasamos um pouco o lançamento, para finalizar o disco  – diz ele. – Aí, como não podia ter show mesmo, no dia 16 de junho, meu aniversário, lançamos o primeiro single, “Edm (e-dependent mind)”.

No clipe da música, Kiko solta os demônios na guitarra enquanto um casal vive a vida sem jamais tirar o olho do celular: – Eu quis falar dessa dependência digital que assola a gente, sem palavras, claro, já que o disco é instrumental – diz ele. – O principal conceito é esse que dá nome ao trabalho, “Open source” (“Fonte aberta”). Eu gravei o disco a partir de um crowdfunding, sem gravadora, independente, para que os direitos sejam 100% meus. Assim, eu pude “abrir” as faixas: a partir de agosto, quem quiser pode pegar as bases e gravar sua própria guitarra em cima. Muita gente já está fazendo isso por conta própria, com um resultado muito legal.

O principal alicerce de “Open source”, ele reforça, é a colaboração: – O disco é um esforço meu com mais um monte de gente: músicos, pessoal do estúdio, artistas da capa, os profissionais que fizeram o clipe, todo mundo que ajudou na vaquinha – enumera ele. – Então eu fiz questão de disponibilizar o disco inteiro no YouTube e de liberar pra todo mundo tocar comigo

Ele tenta destacar o lado positivo da internet, mas ressalta que não existe só esse: – Claro que tem o lado negativo, como eu mostro no clipe, da ansiedade, a dependência que as pessoas criam, e toda a manipulação, as fake news. Você acha que quando surgir uma vacina contra a Covid não vai ter um terraplanista dizendo que ela não funciona, que é um plano do FBI ou do Roberto Marinho para infectar as pessoas? Temos que conviver com esse lado também, infelizmente. 

Mas e a parte musical? O que tem a dizer um guitarrista de rock num disco instrumental em 2020, quando todo o shredding (palavra que se usa para o guitarrista que toca a mil por hora, comum no metal) já foi dissecado em vídeos no YouTube e outras mídias? – Eu tento encontrar um equilíbrio, ser criativo com as melodias, com as bases, o próprio som da guitarra – diz ele. – Mas também sei que o meu público, que tem muitos guitarristas, quer me ouvir tocando rapidinho em alguns momentos.

Além de “E-dm”, o disco traz músicas como “Baião”, baseada no tradicional ritmo nordestino, “Dreamlike”, que vai por um lado mais cabeça-Steve Vai, “Running with the bulls”, de sabor espanhol, e “Imminent threat”, uma ameaça iminente em que Kiko recebe Marty Friedman, guitarrista que ocupou o posto que hoje é dele no Megadeth (entre 1990 e 2000), e com quem vive sendo comparado: – Eu o convidei pra gente mostrar que não existe nada disso, de rivalidade, somos dois músicos, e ele mandou muito bem na gravação. É um cara que eu admiro muito. 

Enquanto promove “Open source”, Kiko espera as novidades do quartel-general do Megadeth, nos Estados Unidos: – O plano era sairmos da turnê para o estúdio, para acabarmos as gravações do disco novo – conta ele. – Agora temos que ter paciência e aguardar. Temos shows marcados para o ano que vem, mas eu desconsidero essa prática, a do show ao vivo. No momento, ele não é possível, e vamos nos virar sem ele. Vamos fazendo arte do jeito que dá, as pessoas estão precisando muito.  

Abaixo você confere o novo disco de Kiko Loureiro na íntegra: