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A Rádio Cidade já ouviu o novo álbum dos Strokes; leia na crítica do jornalista Bernardo Araujo

8 de abril de 2020

The Strokes se recuperam de década perdida e saem vivos da tumba em novo disco

“The new abnormal” traz a banda nova-iorquina em uma forma só vista nos primeiros anos do século

Bernardo Araujo 

Os anos 2010, sei lá como foram chamados, a gente tirou de folga“, disse o sempre falastrão Julian Casablancas, anunciando o retorno de sua banda, os Strokes, com seu primeiro disco de carreira desde “Comedown machine” (quem?), de 2013. “Agora fomos descongelados e estamos de volta”. 

Um disco novo de um quinteto como os Strokes – formado pelo bad boyzinho Casablancas nos vocais, Albert Hammond Jr. e Nick Valensi nas guitarras, Nikolai Fraiture no baixo e o ítalo-carioca Fabrizio Moretti na bateria -, que sacudiu o mundo com seu rock garageiro e sua atitude cool há 20 anos, é sempre uma boa notícia.

Mas como está mesmo o crédito dos meninos (hoje chegando aos 40 anos)?-  Pelo menos dois discos esquecíveis (“Angles” e “Comedown machine”, que somam 11 anos sem lançar música relevante);- Carreiras solo e projetos paralelos que tampouco foram longe;- Uma preguiça monstra de shows e turnês (como o Brasil viu no último baile da Ilha Fiscal do Lollapalooza em 2017, um domingo à noite em que o “Fantástico” deve ter sido mais roqueiro);Is this it? É isso aí mesmo?

Primeiras impressões da Terra: os Strokes estão de volta. Em apenas nove músicas (uma década pra compor e gravar NOVE canções?), os rapazes mostram que sim, ainda sabem fazer rock, variar melodias e levadas e até criar letras com alguma maturidade, usando as próprias armas sem soar repetitivos, mas imprimindo sua assinatura a cada palhetada para baixo nas cordas dos instrumentos.

A produção de Rick Rubin (aquele mesmo, o barbudão do Metallica, Slayer, Beastie Boys, Johnny Cash, Red Hot Chili Peppers e mais metade do mundo do rock) também merece aplausos: Rubin é conhecido exatamente por fazer com que as bandas soem como elas mesmas; diz a lenda que ele chega ao estúdio, deita-se num sofá e diz: “Toca aí”. Pois os Strokes tocaram, e soam como os Strokes, mais do que nunca, num equilíbrio delicado em que se escuta a coesão ao mesmo tempo em que se nota o trabalho de cada um dos cinco. 

Das nove músicas, três já tinham sido lançadas como singles, bem diferentes entre si:

At the door“, pilotada por sintetizadores (nas mãos dos guitarristas Hammond Jr. e Valensi) – e com um belo e melancólico clipe em animação -, dava uma impressão diferente do que seria o disco: poucas guitarras, clima deprê? Por sorte, não, e ela acaba fazendo sentido no meio da coleção, com seus ecos de Depeche Mode e Soft Cell.

Bad decisions“, talvez a melhor das nove, é exatamente o contrário: “Estou tomando más decisões por você”, diz o refrão irresistível, numa levada dançante quase new wave – também acompanhada de um clipe, este mais engraçadinho. Mas esse refrão… uma olhada nos créditos desvenda o mistério: a música é parceria dos Strokes com Billy Idol e Tony James, ex-companheiro do lourão na banda Generation X e ex-integrante de Sisters of Mercy e Sigue Sigue Sputnik. Dancing with myself… mas no rock tudo se transforma, os Strokes são a prova viva disso e estão perdoados.

A terceira, lançada pouco antes do disco, fica entre as duas: “Brooklyn Bridge to chorus” é um pop-rock redondo, com a bateria de Moretti na cara, levada por teclados e guitarras – e uma referência à Nova York natal da banda, que aparece também na canção que fecha o disco, “Ode to the Mets“, homenagem ao time de beisebol de muita tradição e poucos troféus, que tem Jerry Seinfeld, Adam Sandler, Glenn Close e Larry David entre seus torcedores ilustres (a música, aliás, tem esse nome mas não menciona os Mets na letra).

The new abnormal“, cuja data de lançamento é nesta Sexta-Feira Santa, dia 10 de abril, soa como uma banda trabalhando e se divertindo, fazendo o que gosta – o que também pode ser mérito do psicólogo Rubin, visto que a banda nem sempre esteve em céu azul em termos de relacionamento. Até algumas supostas conversas no estúdio foram parar no meio das faixas. “O clique deveria estar em você, Fab”. “Mas o clique não estava ligado”, responde o baterista sobre o barulhinho rítmico que, em seu fone, o mantém no tempo exato na hora das gravações.

The adults are talking“, com uma levada nervosinha de guitarras em stacatto, abre o disco como um perfeito cartão de visitas: Julian canta baixinho, para, na segunda parte, emprestar dramaticidade à melodia, numa espécie de efeito chiaroscuro que é uma das marcas da banda; “Selfless”  já cai mais na melancolia, assim como “Why are Sundays so depressing?“. Até um cheiro de chanson americana aparece, em “Not the same anymore“. 

Em 45 minutos, reinventa-se uma banda. Que o mundo não tenha que esperar mais uma década pelo segundo tempo deste jogo. 

Lembrando que nesta sexta-feira, 10 de abril, às 22h, a Rádio Cidade vai transmitir um especial com todas as nove canções do novo álbum. Para não ficar de fora, sintonize 102,9 ou acesse o nosso player.